Este texto não é um sermão contra beber. É um convite para observar por que e para que você bebe. Porque existe uma diferença importante entre beber para celebrar e beber para não sentir.

Por que o álcool parece funcionar

O álcool tem efeito depressor sobre o sistema nervoso central. Nas primeiras doses, ele reduz a tensão e a vigilância, e a pessoa se sente mais solta. Para quem vive ansioso ou sobrecarregado, essa sensação é um alívio rápido e fácil de conseguir.

O problema é o que vem depois. À medida que o efeito passa, o corpo reage: o sono fica mais fragmentado, a ansiedade do dia seguinte aumenta e o humor tende a cair. Com o tempo, é preciso beber mais para ter o mesmo alívio.

O álcool não resolve a emoção. Ele adia o encontro com ela, e geralmente ela volta maior.

Por que isso é mais comum entre homens

Em muitos contextos, beber é uma das poucas formas socialmente aceitas de um homem relaxar, se aproximar dos amigos ou desabafar. O bar vira o único lugar onde se fala de problemas, e só depois de algumas doses. De acordo com a OMS, os homens concentram a maior parte das mortes atribuídas ao álcool no mundo.

Sinais de alerta

  • você bebe para conseguir dormir ou para “desligar” a cabeça;
  • a bebida virou o principal jeito de lidar com estresse ou tristeza;
  • você bebe sozinho com frequência;
  • precisa de mais doses para sentir o mesmo efeito;
  • pessoas próximas já comentaram sobre o quanto você bebe;
  • você se irrita quando alguém toca no assunto;
  • já tentou diminuir e não conseguiu;
  • a bebida tem causado problemas no trabalho, no trânsito ou em casa.

Álcool, ansiedade e depressão

A relação é de mão dupla: quem está ansioso ou deprimido pode beber mais, e quem bebe muito tende a ficar mais ansioso e deprimido. Por isso, olhar só para o consumo, sem entender o que ele está tentando aliviar, costuma não funcionar. É preciso cuidar das duas pontas.

Como a terapia pode ajudar

Na Terapia Cognitivo-Comportamental, o trabalho pode incluir:

  • identificar as situações e emoções que disparam a vontade de beber;
  • construir alternativas reais para relaxar, dormir e lidar com a tensão;
  • tratar a ansiedade ou a depressão que estão por trás;
  • definir metas de consumo realistas, combinadas com você.

Quando há dependência ou risco de abstinência, o acompanhamento médico é indispensável, e a psicoterapia trabalha junto. Nunca interrompa um consumo intenso de forma abrupta sem orientação médica.

Um experimento para esta semana

Nos dias em que sentir vontade de beber, anote antes: que horas são, onde você está, o que aconteceu no dia e o que está sentindo. Depois de uma semana, releia. Os padrões costumam aparecer com clareza, e esse material é ótimo para levar para a terapia.

Se quiser conversar sobre isso com sigilo e sem julgamento, conheça o acompanhamento de saúde mental masculina.

Se você está em sofrimento intenso ou pensando em tirar a própria vida, ligue agora para o CVV, no 188 (24 horas, gratuito, também por chat em cvv.org.br), ou para o SAMU, no 192. Você não precisa passar por isso sozinho.

Valdir Leite Machado Junior

Psicólogo clínico (CRP 06/139689), especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental e em Saúde Pública. Atende em Ribeirão Preto e online, com foco em saúde mental masculina, ansiedade e depressão. Conheça a trajetória.