Todo ano, em novembro, a cor azul aparece em campanhas, consultórios e redes sociais para lembrar os homens de cuidar da saúde, especialmente da próstata. É uma conquista importante. Mas existe um item que quase nunca entra nesse check-up: a saúde mental.
E não é um detalhe. Homens procuram menos os serviços de saúde, falam menos sobre o que sentem e, quando o sofrimento psicológico aparece, ele costuma vir disfarçado. Este texto é um convite para incluir a mente na conversa do Novembro Azul.
O que os números mostram
Segundo o Ministério da Saúde, cerca de 79% das mortes por suicídio no Brasil são de homens, e a taxa de mortalidade masculina foi aproximadamente quatro vezes maior que a feminina no período de 2011 a 2015 (Boletim Epidemiológico, 2017). No mundo, a Organização Mundial da Saúde também registra mais que o dobro de mortes por suicídio entre homens do que entre mulheres.
Ao mesmo tempo, as mulheres buscam ajuda com mais frequência. Ou seja: os homens não sofrem menos. Eles pedem ajuda menos, e mais tarde.
Por que a saúde mental fica de fora
Muitos homens cresceram ouvindo que “homem não chora”, que é preciso “aguentar firme” e que problema se resolve sozinho. Essas ideias não aparecem como regras escritas, mas moldam comportamentos:
- adiar a busca por ajuda até que o problema atrapalhe o trabalho ou a família;
- tratar o sofrimento emocional como algo físico (“é só cansaço”, “é a coluna”, “é estresse do trabalho”);
- usar o trabalho, o álcool ou a irritação como válvulas de escape;
- sentir vergonha de admitir que não está bem, inclusive para si mesmo.
Nada disso é falha de caráter. É aprendizado. E aquilo que foi aprendido pode ser revisto.
O homem que procura ajuda não é o mais frágil. Muitas vezes, é o primeiro da família a quebrar um ciclo de silêncio.
Sinais de que a mente também precisa de atenção
No homem, o sofrimento psicológico nem sempre aparece como tristeza. Fique atento se, nas últimas semanas, você percebeu:
- irritação constante ou explosões por coisas pequenas;
- sono ruim: dificuldade para dormir, acordar de madrugada ou dormir demais;
- cansaço que não melhora com descanso;
- isolamento, menos vontade de ver amigos ou família;
- aumento do consumo de álcool ou outras substâncias;
- perda de interesse em coisas que antes davam prazer, inclusive no sexo;
- sensação de que tudo depende de você e de que não pode falhar;
- pensamentos de que seria melhor não estar aqui.
Se esse último item faz parte do seu momento, procure ajuda hoje: o CVV atende pelo 188, 24 horas, gratuitamente.
Um check-up emocional possível
Assim como o exame de rotina, cuidar da mente começa com perguntas simples. Responda com honestidade, só para você:
- Como tenho dormido nas últimas duas semanas?
- Com quem eu falo quando algo me preocupa de verdade?
- O que eu faço para aliviar a tensão? Isso me ajuda ou me prejudica?
- Tenho me irritado mais do que gostaria com quem eu amo?
- Há quanto tempo não faço algo só porque gosto?
Se as respostas te incomodaram, isso já é uma informação valiosa. Não significa que exista um transtorno, mas sim que vale conversar com um profissional.
Como a terapia pode ajudar
Na Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), o trabalho é objetivo: entender quais pensamentos e situações alimentam o mal-estar e construir estratégias práticas para lidar com eles. Para muitos homens, saber que a terapia tem método, metas e tarefas concretas diminui a resistência inicial.
A terapia também é um lugar de sigilo. O que é dito ali fica ali, por dever ético do psicólogo. Você não precisa chegar com as palavras certas nem com tudo organizado.
O próximo passo
Neste Novembro Azul, inclua a saúde mental no seu cuidado. Marque o exame de rotina e, se perceber que a cabeça também está pedindo atenção, converse com um psicólogo. Se você está em Ribeirão Preto ou prefere o atendimento online, conheça a página de psicólogo para homens e veja como funciona o acompanhamento.
Se você está em sofrimento intenso ou pensando em tirar a própria vida, ligue agora para o CVV, no 188 (24 horas, gratuito, também por chat em cvv.org.br), ou para o SAMU, no 192. Você não precisa passar por isso sozinho.



