“Eu não sei explicar o que sinto.” Muitos homens dizem isso com sinceridade. Não é falta de vontade nem de sensibilidade. É falta de prática. Ninguém ensinou, e quando tentaram, talvez tenham ouvido que estavam exagerando.

Falar sobre emoções é uma habilidade, como dirigir ou negociar. Dá para aprender, começando pequeno.

Por que é tão difícil

Há três motivos frequentes. O primeiro é o vocabulário: muitos homens só têm duas ou três palavras para emoções (“bem”, “estressado”, “puto”). O segundo é o medo da reação: de parecer fraco, de preocupar a família, de ser julgado. O terceiro é o hábito: se você nunca falou, o silêncio parece mais seguro.

Passo 1: amplie o vocabulário

Antes de falar com alguém, comece falando consigo. Quando perceber um desconforto, tente ser mais específico do que “estou mal”. Algumas opções:

  • em vez de estressado: sobrecarregado, pressionado, preocupado, sem saída;
  • em vez de irritado: frustrado, desrespeitado, ignorado, injustiçado;
  • em vez de cansado: desanimado, sem energia, sem sentido, sozinho.

Dar o nome certo já reduz a intensidade da emoção e ajuda a entender o que você precisa.

Passo 2: use o corpo como pista

Se é difícil saber o que sente, comece pelo corpo. Peito apertado, mandíbula travada, estômago revirado, ombros duros. Pergunte-se: “quando isso começou? O que estava acontecendo?”. O corpo costuma avisar antes da mente.

Passo 3: escolha a pessoa e o momento

Não precisa ser uma conversa profunda logo de cara. Escolha alguém de confiança e um momento tranquilo, sem pressa. Conversas lado a lado (no carro, numa caminhada, pescando) costumam ser mais fáceis para muitos homens do que cara a cara.

Passo 4: use frases simples

Uma estrutura útil é: “Quando acontece X, eu me sinto Y, e eu precisava de Z.” Por exemplo:

“Quando chego em casa e já tem uma lista de problemas, eu me sinto sobrecarregado. Eu precisava de dez minutos antes de conversar.”

Repare que a frase fala de você, não ataca o outro. Isso diminui a chance de virar briga.

Passo 5: aceite que vai sair imperfeito

As primeiras tentativas vão parecer estranhas. Você pode travar, rir de nervoso ou mudar de assunto. Faz parte. O objetivo não é falar bonito, é não carregar tudo sozinho.

E a terapia?

A terapia é um ótimo lugar para treinar, justamente porque é um espaço sem julgamento, com sigilo garantido e com alguém preparado para ajudar a organizar o que está confuso. Muitos homens dizem que, depois de algumas sessões, ficou mais fácil conversar também em casa.

Se quiser entender como é esse acompanhamento, veja a página de psicólogo para homens ou leia por que tantos homens adiam a terapia.

Se você está em sofrimento intenso ou pensando em tirar a própria vida, ligue agora para o CVV, no 188 (24 horas, gratuito, também por chat em cvv.org.br), ou para o SAMU, no 192. Você não precisa passar por isso sozinho.

Valdir Leite Machado Junior

Psicólogo clínico (CRP 06/139689), especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental e em Saúde Pública. Atende em Ribeirão Preto e online, com foco em saúde mental masculina, ansiedade e depressão. Conheça a trajetória.